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'Homens invisíveis'
No livro, Fernando Braga da Costa relata a experiência de ser gari e entrar em contato com o mundo através do lixo dos outros
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Por nove anos, o autor vive na pele as conseqüências do trabalho de um varredor de rua, objeto de seu mestrado e doutorado
O título 'Homens Invisíveis' faz uma alusão ao descaso que a população faz destes trabalhadores, dificilmente notados no dia-a-dia
(...) A tarefa dos 70 alunos da disciplina Psicologia Social II era exercer, por um dia, e ao lado dos trabalhadores reais, uma profissão definida como "subalterna e não-qualificada". Cada um escolheria a que bem entendesse. Fernando, assim como os demais estudantes, cumpriu a tarefa. Mas não limitou a experiência àquele único dia. Por vontade própria, passou a exercer a profissão escolhida – e a viver na pele as conseqüências dela – uma vez por semana. (...)
Somente os relatos dos profissionais "subalternos e não-qualificados", anotados no diário de campo do mestrado ao longo de oito anos, renderam mais de 500 páginas. Antes mesmo da conclusão, a pesquisa ficou famosa, no meio acadêmico e fora dele. Fernando, que não tinha nem sequer a pretensão de escrever um artigo, passou a receber telefonemas de várias partes do país. (...)
A possibilidade de intervir, ainda que de forma miúda, para melhorar a realidade, motivou Fernando a escrever Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social. A obra conta a história do relacionamento dele com pessoas que exercem não apenas uma profissão "subalterna e não-qualificada", mas uma profissão desumana e mal-paga, que condena seres humanos a trabalhos degradantes, a tarefas que ferem não só o corpo, mas também – e principalmente – a alma.
"O corpo é surrado, sugado, machucado, infestado: a única empresa do trabalhador vai falindo. Sua saúde entra em colapso, com complicações de todas as naturezas e magnitudes. (...) Um dia, a saúde falece, definitiva e precocemente. E a alma – humilhada, comprimida, aviltada, destroçada – permanece". Este e outros trechos igualmente contundentes nos mostram como é cruel o dia-a-dia e o destino de quem entra em contato com o mundo através do contato direto com o lixo e o material desprezado pelo mundo, por todos nós. Como é ingrato ser gari. Varredor de rua. Lixeiro. Subalterno. Não-qualificado.
Ocupante do cargo mais raso, denominado "ajudante de serviços gerais", gari não é consultado sobre qual trabalho deve ser feito antes. Não escolhe suas ferramentas e delas não pode reclamar, mesmo que sejam inadequadas, perigosas, desgastadas – enfim, mesmo que nem ao menos pareçam projetadas para o corpo humano. O trabalho – sujo, insalubre, braçal, repetitivo, humilhante – é exercido sob hierarquia severa e autoritária. Pior: por tudo isso, quem é gari deixa de ser visto como pessoa e passa a ser visto – quando visto – apenas como função. Geralmente, como provam diversos episódios do livro, gari passa despercebido. Não é notado ou cumprimentado. Vira homem invisível.
A leitura do livro provoca questionamentos que se repetem a cada página. Quantas vezes não notei um varredor na rua? Quantas vezes não lhe dei um simples bom dia? Quantas vezes passei por ele como se estivesse passando ao lado de um item paisagístico? "Um poste, uma árvore, uma placa de sinalização de trânsito, um orelhão, uma pessoa em uniforme de gari na atmosfera social: todos parecem valer a mesma coisa", constata Fernando em seu livro.
Arrogância e humildade
Diferentes capítulos mostram a forma arrogante como alunos, professores e funcionários da USP costumam (quando os notam) tratar os garis que trabalham para a prefeitura da universidade – foram esses, os garis da USP, os trabalhadores escolhidos por Fernando ainda durante sua graduação. "Tem gente que passa aqui, é como se a gente não existisse", conta um de seus companheiros.
Vestindo o uniforme de gari, Fernando quase nunca foi reconhecido ao cruzar com professores ou colegas estudantes do Instituto de Psicologia. Depois de um tempo, acostumou-se. Mas, no começo, a sensação era desconcertante, como revela no livro: "As pessoas pelas quais passávamos não reagiam à nossa presença. (...) Nenhuma saudação corriqueira, um olhar, sequer um aceno de cabeça. Foi surpreendente. Eu era um uniforme que perambulava: estava invisível".
(...)
Indignação e poesia
Embora intercaladas por alguns trechos mais técnicos, que dão sustentação teórica ao trabalho, as histórias são contadas com um misto de emoção e indignação pulsante, e em alguns momentos o texto preciso de Fernando Braga da Costa chega a ser poético.
"Escrevi muita poesia quando era adolescente e, no início da faculdade, escrevia uma ou duas por dia. Mas sentia que, frente ao conhecimento acadêmico, minhas paixões pareciam coisas idiotas", lembra. Nessa época, diz, o apoio de sua terapeuta foi fundamental: "Quem sabe você não consegue juntar o rigor científico com a poesia?", era a aposta dela. Foi algo bem próximo disso o que Fernando fez em seu livro, lançado pela Editora Globo no final de 2004.
Apesar de alguns jornalistas terem escrito que a obra tem como propósito clamar por "melhores condições de trabalho" aos garis, Fernando fez questão de repetir, na entrevista, o que defende várias vezes em Homens invisíveis: o fim de profissões como gari e tantas outras.
Seu orientador, José Moura Gonçalves Filho, o Zeca, pensa da mesma forma. "Se nossos sentidos e corpos fossem feridos como o são entre os garis, compreenderíamos mais facilmente a necessidade de socialmente cancelarmos trabalhos degradantes, para a alma e para o corpo humanos". Zeca, que assina o prefácio de Homens invisíveis, afirma no livro que trabalhos como esse "não devem ser reservados a uma classe de homens rebaixados e degradados, mas precisariam ser socialmente generalizados, um dever de todos e cada um".
O convívio de uma década com os varredores transformou a vida de Fernando. "Parece que este mundo não me serve mais. Se vou a um restaurante, a sensação é desagradável quando sou atendido pelo garçom. Ele parece ser o antigo escravo a serviço da casa grande, ele me serve mas não pode compartilhar a refeição comigo."
O que o psicólogo não esperava era que sua obra pudesse também causar transformações no comportamento de seus leitores. Meses atrás, ouviu, de um jornalista gaúcho que o havia entrevistado dias antes, o seguinte relato: "A gente estava entrando na sala de aula da pós-graduação e, ao passar pela faxineira, nenhum dos meus colegas deu bom dia a ela. Mas, quando eu a cumprimentei, ela ficou visivelmente muito feliz, conversou comigo..."
Fernando diz que, emocionado, respondeu ao jornalista com um nó na garganta. "Não sei se era isso o que eu queria com meu livro. Dez anos atrás, eu não queria nada, não tinha nenhuma pretensão. Mas se o livro serviu ao menos para isso, para mudanças de atitude como essa, eu já fico muito feliz".
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Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social
Fernando Braga da Costa
Editora Globo
2004
254 páginas
FONTE:
VEJA TB:
http://vidasimples.abril.com.br/livre/menteaberta/11.shtml

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Cartaz do Filme: O Jardineiro Fiel
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O Jardineiro Fiel cultiva a dor humana
texto publicado em 19/10/05 em http://www.cidadaodomundo.org
Washington Araújo
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"O Jardineiro Fiel, dirigido pelo diretor Fernando Meirelles merece ser visto. E comentado. O tema é atual: o uso do povo africano para testar medicamentos. Seres humanos são tratados como cobaias. Por quem? Pelos multimilionários laboratórios farmacêuticos tanto dos Estados Unidos quanto da Europa. A trama, inspirada em novela de John Le Carrè, mistura de tudo um pouco: realidade com ficção, diplomacia com espionagem, sentimentos nobres com a ganância por lucros. É um filme onde os bons são bons e os maus, maus. Não há meio termo, principalmente em se tratando de uma trama urdida por Le Carrè. Traições, solidão, mesquinhez e bravura conspiram ao longo de 125 minutos para nos fazer refletir sobre o que está por trás do surgimento de drogas potentes contra o câncer, a tuberculose ou mesmo o avanço do HIV. A fotografia tem o genes – se assim podemos chamar – do premiado Cidade de Deus. As paisagens ao tempo em que mostram a miséria nua e crua de lugares como o Zimbabue e Ruanda, apresenta também planos longos de extensas planícies, vales, tudo isso embalado por música ritmo New Age. O que menos aparece é o jardim… mas o aroma da fidelidade consegue tomar posse da sala do cinema em contraponto a ambientes políticos pautados por elevado grau de corruptores e corrompidos. O Jardineiro Fiel é mais um forte apelo para se entender porque a África tem entrado na História pela porta dos fundos. Se Fernando Meirelles (que ainda é bastante jovem!) não filmar mais nada de agora em diante, ainda assim, terá conseguido deixar uma obra sólida e consistente o bastante para ser reputado como um dos mais geniais diretores brasileiros da safra pós-1964".
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FONTE:
Elogio Ao Jardineiro

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O jardineiro é a melhor metáfora para designar a excelência do educador e do terapeuta. O bom jardineiro prepara um solo fértil, com os nutrientes necessários - nem de mais, nem de menos -, extermina as pragas e poda, com o discernimento que cada planta requer, observando as estações e centrado na singularidade do organismo vegetal. Sobretudo, o bom jardineiro é o amante da planta. Jamais será tão tolo a ponto de querer doutriná-la com suas teorias e ideais, aceitando e admirando a beleza da biodiversidade. O bom jardineiro sabe que a planta só necessita de um solo fecundo, crescendo por si mesma, já que é dotada de um tropismo para ser o que é, buscando o que necessita no solo e direcionando-se para a luz do sol. O que seria de um jasmim se forçado a ser como uma rosa?
Aqui, tocamos o coração da tragédia de um modelo educacional distorcido e esclerosado, a serviço da normóse que, infelizmente, é ainda dominante: a criança é forçada a ser o que não é, por meio do fórceps de um currículo estreito e rígido e do instrumento torturante da comparação. Comparar uma criança com outra ainda será considerado um crime, num futuro breve e mais saudável. Essa é a gênese da perversão e da corrupção. Para conseguir aprovação, o estudante é obrigado a jogar sua diferença e sua originalidade na lata do lixo, vendendo-se por notas. Mais tarde, poderá se vender por outras notas... É desolador ter que reconhecer que, na horta de um horticultor qualquer, um pé de alface é muito mais bem tratado do que nossas crianças estão sendo, nesse simulacro de escola. O que pensaríamos de um horticultor que exigisse, de todas as suas diversas hortaliças, o mesmo desempenho, o mesmo resultado?
Cada aprendiz necessita ser respeitado na sua alteridade e no seu estilo próprio de aprender a aprender. Numa escola saudável, o educador centra-se no aprendiz - e não num programa rígido, massificador e castrador do brilho e da originalidade que emanam de cada pessoa. "Utopia!", esbravejarão alguns. Permito-me lembrar-lhes, então, que utopia não é o irrealizável; é tão-somente o ainda não realizado, aquilo para o qual ainda não existe espaço.
É tempo de educar educadores. É tempo de ousar resgatar o espaço sagrado onde o aprendiz possa orientar seu coração para aprender, sobretudo, a ser plenamente o que ele é. É tempo de conspirar por uma educação não-normótica, centrada na totalidade. É tempo de reconstruir o templo da inteireza. Concluo com uma fala antiga que aponta para a essência do que é educar:
"Aos quinze anos orientei o meu coração para aprender. Aos trinta, plantei meus pés firmemente no chão. Aos quarenta, não mais sofria de perplexidade. Aos cinqüenta, sabia quais eram os preceitos do céu. Aos sessenta, eu os ouvia com ouvido dócil. Aos setenta, eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, pois o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da Justiça".
Confúcio
(2.600 a.C.)
"Só a rede do amor pode fazer frente à rede do terror. Podemos juntar nossas mentes e corações, dando-nos as mãos, numa corrente de fraternidade, de confiança e de prece, para que a flor possa brotar da dor, para que possamos renascer deste calvário coletivo, para que não tarde a Luz no final dos escombros".
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Roberto Crema
Psicólogo e antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, analista transacional didata, criador do enfoque da Síntese Transacional. Mentor da Formação Holística de Base da UNIPAZ. Diretor da Holos Brasil. Educador e autor de vários livros, entre os quais "Análise Transacional Centrada na Pessoa", "Introdução à visão holística" e "Saúde e plenitude". Vice -reitor da UNIPAZ.
http://www.cuidardoser.com.br/elogio-ao-jardineiro.htm