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Amigo leitor, julgou-se de interesse geral a leitura do artigo abaixo, tocando na delicada questão da intolerância religiosa. Explícita ou atitudinal, encoberta pela "moral e bons costumes". Pensemos na paz da diversidade, em nossos grupos. (A.B.)

http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/050105/martha_nussbaum.html
VEJA-ON-LINE - Edição 1886 . 5/jan/2005
Martha Nussbaum
~ O céu de cada um ~
NÃO se render aos apelos cada vez
maiores da intolerância religiosa
A QUESTÃO
NÃO BASTAM LEIS PARA GARANTIR A LIBERDADE DE CREDO EM UM PAÍS. NESSE CAMPO, AS NORMAS PÚBLICAS SÃO INEFICAZES NA AUSÊNCIA DE REFORÇOS EDUCATIVOS E CULTURAIS. MAS OS GOVERNOS TÊM SE ESQUECIDO DE SEU PAPEL NA GARANTIA E NA VALORIZAÇÃO DA TOLERÂNCIA.
O PERIGO
A RELIGIÃO VAI CONTINUAR SENDO UMA DAS MAIS GRAVES QUESTÕES POLÍTICAS DOS PRÓXIMOS TEMPOS – E ATÉ MESMO NAS MAIS SÓLIDAS DEMOCRACIAS COMEÇA A GANHAR FORÇA A IDÉIA DE QUE SE DEVE OBRIGAR OS DISSIDENTES A ADERIR A UMA CORRENTE RELIGIOSA "CORRETA".
Às vezes as idéias antigas são as mais perigosas, e poucas idéias são tão antigas quanto aquelas por trás da intolerância religiosa. Lamentavelmente, tais idéias estão recobrando nova vida. Em 2002, hinduístas de Gujarat, na Índia, massacraram várias centenas de muçulmanos, com a ajuda de funcionários públicos e da polícia. Recentemente, a Europa testemunhou um assustador renascimento do anti–semitismo, ao mesmo tempo que vem crescendo, no mundo muçulmano, a atração por formas radicais do Islã. O preconceito contra os muçulmanos e uma tendência a identificar o Islã ao terrorismo são mais do que evidentes nos Estados Unidos. Os exemplos são incontáveis. A intolerância gera intolerância, à medida que manifestações de ódio alimentam inseguranças existentes e permitem que as pessoas vejam suas próprias agressões como atos legítimos em defesa própria.
Tipicamente, são duas as idéias que promovem a intolerância e o desrespeito religiosos. De acordo com a primeira, a nossa religião é a única verdadeira, ao passo que todas as outras são falsas ou moralmente incorretas. No entanto, aqueles que adotam essa concepção também podem admitir que os outros mereçam respeito pelas crenças que adotam, na medida em que não prejudiquem ninguém. Bem mais perigosa é a segunda idéia: a de que o Estado e os cidadãos deveriam obrigar os dissidentes a aderir à abordagem religiosa “correta”. Essa é uma idéia que vem se difundindo até mesmo em democracias modernas. A relutância da França em tolerar símbolos religiosos nas escolas, assim como os repetidos clamores da ala direita do hinduísmo para que as minorias na Índia se tornem parte da cultura hindu, são exemplos recentes e preocupantes. O ressurgimento desse tipo de pensamento constitui uma grave ameaça às sociedades liberais, as quais se baseiam em idéias de liberdade e igualdade.
Não é difícil entender o atrativo da intolerância religiosa. Desde a infância, os seres humanos são plenamente conscientes de sua vulnerabilidade em relação a coisas fundamentais, como a alimentação, o amor e a própria vida. A religião ajuda as pessoas a lidar com a perda e com o temor da morte; ela ensina princípios morais e incentiva as pessoas a segui–los. No entanto, exatamente por serem fontes tão poderosas de moralidade e sentido comunitário, as religiões podem facilmente se tornar meios para a fuga da vulnerabilidade, muitas vezes assumindo a forma da opressão e da imposição de hierarquias. No mundo atual cada vez mais acelerado, as pessoas confrontam–se com diferenças étnicas e religiosas de maneiras novas e assustadoras. Aferrando–se a uma religião que acreditam ser a certa, cercando–se de correligionários e depois submetendo os outros que não aceitam essa religião, as pessoas conseguem esquecer por um momento sua fragilidade e sua mortalidade.
Não basta uma boa legislação para combater esse problema que, no fundo, é emocional e social. Há muito as sociedades liberais modernas compreenderam a importância de normas jurídicas e constitucionais que expressem um compromisso com a liberdade religiosa e com a igualdade de cidadãos que professam outros credos. No entanto, embora a codificação jurídica seja essencial, constituições e leis não se implementam por si mesmas, e as normas públicas são ineficazes na ausência de reforços educativos e culturais.
Caberia a nós, portanto, pensar com mais afinco sobre como a retórica (assim como a poesia, a música e a arte) poderia estimular o pluralismo e a tolerância. Os líderes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos compreenderam a necessidade desse tipo de apoio: os discursos de Martin Luther King Jr. ilustram de que modo uma linguagem persuasiva pode ajudar as pessoas a imaginar a igualdade e ver as diferenças como algo desejável, e não algo a ser temido. Durante a recente campanha eleitoral na Índia, as lideranças do Partido do Congresso, sobretudo Sonia Gandhi, difundiram com êxito a imagem de uma Índia intrinsecamente pluralista. (A letra do hino nacional indiano, escrita pelo poeta pluralista Rabindranath Tagore, também celebra as diferenças regionais e étnicas do país.) O atual governo dos Estados Unidos fez declarações sensatas sobre a importância de não se demonizar o Islã, mas alguns de seus membros mais importantes obviamente privilegiam o cristianismo em detrimento da tolerância. O ex–secretário de Justiça dos Estados Unidos John Ashcroft, por exemplo, conclamava sua equipe a entoar hinos cristãos antes do trabalho. E, na época em que ocupava uma cadeira do Senado, Ashcroft chegou a definir os Estados Unidos como “uma cultura que não possui outro rei além de Jesus”.
Durante séculos, pensadores liberais concentraram–se nas garantias jurídicas e constitucionais para a tolerância, negligenciando o cultivo público da emoção e da imaginação. Mas há um custo nessa desconsideração da retórica pelos liberais. Todos os Estados modernos e seus líderes transmitem concepções de igualdade ou desigualdade religiosa por meio da linguagem e das imagens com que se comunicam. Dirigindo–se à comunidade quacre em 1789, o então presidente George Washington escreveu: “As objeções de consciência de todos os homens merecem ser tratadas com o maior tato e cuidado”. Atualmente, esse tato é um artigo raro. Enquanto os líderes não derem a devida atenção ao melhor modo de usar a linguagem em público a fim de promover o respeito, a igualdade entre os homens continuará sendo vulnerável.
Martha Nussbaum é professora de direito e ética na Universidade de Chicago
e autora de Hiding from Humanity (De Costas para a Humanidade)
imagem: http://www.lisadamus.com/tolerancia/tolerancia.jpg
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"Compreendemos mal o mundo e depois dizemos que ele nos decepciona".
Rabindranath Tagore
Rabindranath Tagore (6 de maio de 1861 em Calcutá, Índia - 7 de agosto de 1941 em Calcutá) foi escritor, poeta e músico indiano.
veja tb: http://delasedeles.blog.terra.com.br/poemas_de_rabindranath_tagore

As vilas da paz
A paz é possível, seja entre indivíduos ou entre grupos.
Todos podem viver juntos, lado a lado, sem hostilidades. Essa é a filosofia da Children's International Summer Villages (CISV), uma organização não-governamental espalhada em 62 países do mundo, inclusive no Brasil. O objetivo é colocar jovens e adultos de diferentes culturas em um mesmo lugar. Durante algumas semanas ou meses, dependendo do programa escolhido, as diferenças são mostradas à exaustão. O binômio paz-conhecimento tem dado muitos bons resultados para os dirigentes dessa entidade, que tem sua sede na Inglaterra.
Segundo o balanço oficial da instituição, 155 mil jovens participam das atividades da CISV em todo o mundo. A cada ano são realizadas mais de 4 mil atividades, nos oito principais projetos à disposição dos interessados. "O Brasil tem um papel ativo nesses eventos", informa Paulo de Castro Reis, presidente da CISV nacional. "A associação brasileira é a que mais recebe e envia participantes para os programas Summer e Seminar Camps e está entre as quatro maiores do mundo nos programas Village e Interchange."
Para mostrar que o conhecimento e o respeito mútuo começam na infância, um dos programas com mais adeptos da CISV é o Village. Durante quatro semanas, grupos de crianças de 11 anos de idade se reúnem em algum lugar do planeta para um verdadeiro intercâmbio cultural. Por ano, apenas esse programa recebe a inscrição de 84 mil pessoas. Ao redor do mundo, existem 1.430 "vilas da paz". Os demais programas são realizados seguindo a mesma filosofia, mas com crianças e jovens de outras idades. No Interchange, indicado para meninos e meninas de 12 a 15 anos, os participantes conhecem a cultura de famílias estrangeiras, in loco, nas residências dos anfitriões. O Summer Camp e o Seminar Camp são, respectivamente, destinados para jovens de 13 a 15 anos e de 17 a 18 anos. O Youth Metting já mistura faixas etárias, dos 11 aos 19 anos. Outras formas de convívio também são montadas pelo staff da CISV. Um dos mais recentes projetos é dirigido a adultos com mais de 19 anos. O International People's Project já foi realizado cinco vezes em diferentes lugares do globo. Geralmente, os grupos são de 20 pessoas.
Em 1999, foi a vez do Brasil sediar um desses eventos, que duram no máximo três semanas. A missão do grupo sempre é construir algo ou se integrar às atividades de alguma comunidade. A reserva natural de Salto Morato, no sul do estado de São Paulo, foi a eleita para a visita. Os participantes passaram os seus dias lá, dividindo-se entre atividades culturais e educativas, além das altamente braçais. Foram construídos na região trilhas de observação da natureza e até uma espécie de anfiteatro para sediar os eventos culturais do parque. O mesmo projeto, exemplo claro de diversidade pacífica, também já visitou a Alemanha, a Suécia, a Costa Rica e a Espanha.
imagem: http://galizacig.org/imxact/2004/10/paz_mundo590.jpg
(CONTINUAÇÃO DO POST ANTERIOR...)
http://artebrasilis.blog.terra.com.br/convivencia_etnica_e_religiosa_i
Passado xenófobo
Os imigrantes, que hoje vivem um período de relativa paz no Brasil, já passaram por momentos bem mais difíceis por aqui. As lutas étnicas e religiosas, muitas vezes veladas - como é o caso do racismo hoje -, sempre existiram, de uma forma ou de outra. "As imigrações são, muitas vezes, forçadas; além disso, a falta de passado para um ser humano pode ser algo mais agressivo que a morte", explica Sônia Maria Freitas, historiadora do Memorial do Imigrante que acaba de defender uma tese de doutorado na USP, pesquisando sobre a imigração armênia, chinesa, espanhola, húngara, italiana, lituana, okinawana, russa e ucraniana. "Depois da ditadura militar, que perseguiu comunistas de todas as origens, todos os povos tentaram recriar suas tradições. Muitas vezes, eles mantêm traços culturais já transformados no próprio país de origem", afirma. "Ao contrário do que se propaga, eles não estão tão integrados, aculturados ou abrasileirados", diz a pesquisadora, que conseguiu detectar em sua pesquisa alguns períodos hostis aos imigrantes.
O governo de Getúlio Vargas foi um dos mais xenófobos* da história do Brasil. Segundo a historiadora, o regime do Estado Novo não apenas impôs várias restrições à entrada de estrangeiros como intensificou a xenofobia no país. "Instalou-se aqui um verdadeiro clima de terror e perseguição, a partir de 1939, com o início da Segunda Guerra Mundial e, principalmente, a partir de 1942, com a entrada do Brasil no conflito internacional", explica. Não ter passaporte nacional nos anos que correspondiam à Segunda Grande Guerra também era bastante perigoso. "Constatamos que a política getulista de perseguição aos imigrantes atingiu também aqueles que não eram oriundos dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão)." As pesquisas de Sônia mostram uma série de agressões contra húngaros, lituanos, ucranianos, russos e poloneses. "Essa política colaborou, e muito, para o enfraquecimento de traços étnicos ou manifestações culturais desses grupos e de outros."
Porém, Getúlio Vargas não foi o primeiro a criar políticas xenófobas em território brasileiro. Durante a Primeira República, o Estado brasileiro também se mostrou bastante intolerante ao imigrante. "Tentaram barrar a entrada de militantes e de lideranças anarquistas", lembra Sônia. Por causa da forte atuação dos imigrantes espanhóis e italianos nas greves operárias de 1906, 1917 e 1919, o Governo passou a exigir dos estrangeiros um atestado de bons antecedentes. "Era preciso provar que o candidato a vir ao Brasil não era nem grevista nem bolchevista, e que tinha bom comportamento moral e civil em seu país."
Em épocas ainda mais remotas, os cristãos-novos que habitavam principalmente a cidade do Rio de Janeiro durante o período colonial, sofreram com a perseguição do Santo Ofício. A cíclica intolerância aos iguais não é um privilégio dos tempos modernos. "A Inquisição antecipou em cinco séculos a insanidade racista do século 20", afirma Anita Novinsky, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Segundo Anita, o fanatismo religioso da Inquisição tem as mesmas características do radicalismo apresentado hoje pelos grupos muçulmanos. "A Inquisição também se autoproclamava Corte de Justiça Santa", lembra a professora. Não é a primeira vez que o termo santo, hoje associado pelos terroristas muçulmanos à guerra, é usado por uma causa nada religiosa. "O fanatismo religioso sempre causou guerras sangrentas da História", diz Anita, em um tom suave de alerta.
Augusto Ruas é jornalista e biólogo.
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=119&Artigo_ID=1389&IDCategoria=1496&reftype=2
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* Xenofobia é o medo natural (fobia, aversão) que o ser humano normalmente tem ao que é diferente (para este indivíduo).
Xenofobia é também um distúrbio psiquiátrico ao medo excessivo e descontrolado ao desconhecido ou diferente.
Xenofobia é ainda usado em um sentido amplo (amplamente usado mas muito debatido) referindo-se a qualquer forma de preconceito, racial, grupal (de grupos minoritários) ou cultural. Apesar de amplamente aceito, este significado gera confusões, associando xenofobia a preconceitos, levando a crer que qualquer preconceito é uma fobia.
Xenofobia é comumente associado a aversão a outras raças e culturas. É também associado à fobia em relação a pessoas ou grupos diferentes, com os quais o indivíduo que apresenta a fobia habitualmente não entra em contato e evita.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Xenofobia
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Leia mais sobre "RELIGIÕES" (Etimologia, conceito, Características das principais religiões do mundo) em:
http://www.saberweb.com.br/religiao/religiao.htm

~~~~ SÍMBOLOS DAS RELIGIÕES ~~~~
http://www.saberweb.com.br/religiao/images/religiao-3.jpg
Os países do Brasil
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=119&Artigo_ID=1389&IDCategoria=1496&reftype=2
A convivência na diversidade
por Augusto Ruas
Enquanto o mundo novamente experimenta o gosto amargo da intolerância, a experiência étnica e cultural brasileira mais uma vez parece ser algo impensável em outros cantos do planeta
Machado de Assis, que era negro, nunca saiu do Rio de Janeiro durante os seus 69 anos de vida. Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos talvez não precisasse de mais nada. A então Capital Federal já era um verdadeiro caleidoscópio. Não era preciso ir muito longe para perceber que a diversidade estava em toda a parte. Que o diga Dr. Simão Bacamarte, personagem machadiano de O alienista, que, mesmo depois de ter estudado na Universidade de Coimbra, em Portugal, voltou definitivamente para a sua Vila de Itaguaí.
A vocação brasileira à multiplicidade nunca deixou de existir. Ao contrário. Muitas cidades, como a megalópica São Paulo, apenas acentuaram essa vocação. Durante o século 20, não apenas os paulistas impulsionaram a chamada locomotiva do país, mas também os imigrantes, seus descendentes e vários refugiados de guerra tiveram a oportunidade de chegar e ficar. "Sou grego de nascimento, judeu por religião, mas brasileiro por opção", afirma Shlomo Shoel, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, bairro da zona central de São Paulo, famoso por seu ativo comércio e por ser um verdadeiro caldeirão cultural que, ao contrário de outros lugares do mundo, é marcado pela paz.
Segundo Shoel, sua entidade abriga hoje oito etnias diferentes. "Temos coreanos, gregos, judeus, italianos, bolivianos, chineses, indianos e árabes", explica o ateniense que veio ao Brasil ainda criança, em 1954. "A harmonia sempre existiu. O Brasil é um país tranqüilo. Árabes e judeus sempre se deram muito bem por aqui. Não existe o desacordo."
O presidente da Associação Brasileira dos Coreanos, Augusto Kwon, é enfático na sua figura de linguagem: "Aqui no Bom Retiro, somos iguais à ONU". Nascido em Seul, o imigrante coreano já está há 30 anos no Brasil. Depois de períodos mais difíceis, durante a ditadura, quando a perseguição era maior, Kwon tem uma definição para a sua colônia aqui no Brasil: "Somos de feição coreana, mas de coração brasileiro". Ao contrário de outras partes do mundo, principalmente depois do dia 11 de setembro de 2001 (dia dos ataques às torres do World Trade Center, em Nova York), o presidente da Associação Brasileira dos Coreanos não tem dúvida em afirmar: "O Brasil é a verdadeira demonstração de uma democracia étnica". Líder de uma comunidade de aproximadamente 50 mil pessoas no país, Kwon afirma que os coreanos estão perdendo a vergonha e se integrando mais com os brasileiros. "Nas nossas casas, por exemplo, assimilamos as duas culturas. Vivemos meio a meio", admite. Para ele, o grande problema ainda é a generalização que, às vezes, ocorre. "Não é porque um representante de uma determinada colônia faz algo errado que todos devem pagar por aquilo. Veja o caso dos atentados. É preciso entender o que são muçulmanos e o que são terroristas."
A sintonia também é a regra no famoso mercado persa carioca. Localizado em onze ruas estreitas e 57 quadras próximas à rua da Alfândega, no centro da cidade, árabes, palestinos, libaneses e iranianos travam uma guerra diária. Mas essa é pelo preço mais baixo. Desde 1880, a diversidade étnica e religiosa existe entre os comerciantes da rua da Alfândega. Hoje, a região tem como principal entidade a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (Saara). As recentes guerras entre Irã e Iraque continuam trazendo imigrantes do Oriente Médio para o Rio de Janeiro. Sempre cabe mais um, dizem eles.
A situação na famosa rua 25 de Março, no centro da cidade de São Paulo, não é diferente da do Rio de Janeiro. Além do comércio tradicional (lojas de tecidos, de roupas e os procurados armarinhos), outra atração da rua é a culinária do mundo árabe. Quer seja por alguns restaurantes (as cadeias árabes, hoje famosas em toda a cidade, começaram na região), ou nas pequenas lojas de produtos alimentícios. Nesses minúsculos armazéns, se pode comprar condimentos considerados raros pelos brasileiros, mas que são muito usados nos pratos montados pelos árabes e seus descendentes. O comerciante Elias Ambar faz parte da segunda geração de uma família de árabes que desembarcou no Brasil vinda do Oriente Médio. Seu pai, George Ambar, que deixou o interior do Líbano em 1948, resolveu montar um armarinho na 25 de Março há 50 anos, e Elias, ao lado de mais dois irmãos, é o responsável por dirigir os negócios hoje. "Graças a Deus o clima aqui é de total harmonia. Não temos nenhuma referência próxima do que é viver em guerra", diz o comerciante. Segundo ele, tanto a família de sua mãe como a de seu pai resolveram deixar o Líbano por causa do clima hostil que já havia naquela época. "Infelizmente, as coisas pioraram recentemente outra vez", atesta Elias. O objetivo de seus pais era bem claro: trocar um país sem nenhuma perspectiva por um outro que poderia oferecer a eles um grande horizonte pela frente. "Não nos arrependemos", conclui.
Um porto seguro
A sensação dos imigrantes que desembarcaram no Brasil no século passado - de que o país era um porto seguro - continua muito forte. O caldeirão étnico continua em ebulição. Nos anos mais recentes, não apenas os nossos vizinhos latino-americanos, mas também os africanos têm se refugiado aqui. Segundo o relatório do Sesc Carmo, uma das entidades que atende refugiados encaminhados pelo Alto Comitê das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), membros de nove países africanos estão, hoje, tentando recuperar a dignidade vivendo em São Paulo. A lista dos países (Serra Leoa, Angola, República Federal do Congo, Nigéria, Libéria, Marrocos, Tanzânia, Sri Lanka e Ruanda) mostra que a guerra é o grande motivo da fuga.
(...) A Acnur recebe também refugiados do Leste Europeu, por causa de guerras e revoluções sociais. São originários da Romênia, Albânia e ex-Iugoslávia.
Universidade aberta
A comunidade africana na Universidade de São Paulo (USP) também é bastante significativa. São mais de cem estudantes de graduação e pós-graduação que, através do Itamaraty, desembarcam todos os anos na maior universidade da América Latina. Bem enturmados, eles dizem não saber o que é intolerância étnica por aqui. Porém, em outras épocas, a disponibilização de vagas para alunos africanos não era totalmente aceita pelo resto da comunidade, principalmente pelos brasileiros que moravam perto do campus. Estudam, hoje, na graduação da Universidade de São Paulo, 45 representantes de países africanos. Segundo a Comissão de Cooperação Internacional (CCInt) da entidade, há 6 alunos de Angola, 24 de Cabo Verde, 10 da Guiné, 4 de Moçambique e 1 da Nigéria.
Dados do Memorial do Imigrante de São Paulo apontam que, entre os africanos, os angolanos são os que formam a maior população no Brasil, cerca de 40 mil pessoas. No geral, os grandes grupos de imigrantes ainda são os europeus latinos (espanhóis e italianos) e os orientais (japoneses, chineses e coreanos). Os árabes têm forte expressão no Brasil, com uma colônia de aproximadamente 9 milhões de pessoas, sendo 6 milhões de libaneses. Por essa estimativa, acredita-se que vivam no Brasil hoje 25 milhões de italianos e descendentes e 1,2 milhão de japoneses. Os poloneses, principalmente no sul do país, seriam quase 2 milhões. Os números referem-se aos imigrantes e seus descendentes diretos.
(CONTINUA NO PRÓXIMO POST...)
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