Arte Brasilis

ARTE BRASILIS é uma REVISTA ELETRÔNICA de ARTE, CIÊNCIA, FILOSOFIA e EDUCAÇÃO. Textos e referências para amigos, educadores, interessados em Cultura Brasileira e Educação para a Paz. artebrasilis@hotmail.com (MSN) artebrasilis@bol.com.br

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2007, 17

17.08.07

MUITO PRAZER. EU EXISTO

categorias: AÇÕES EDUCATIVAS

Claudia Werneck.
Jornal do Brasil.
Sábado, 14/09/1998.


- Ô Tia, meu amigo nasceu com seis dedos.
- Minha prima toma injeção todo dia, ela tem diabetes.
- A vovó faz xixi pela barriga.
- Aquele menino perdeu muita prova porque tem falta de ar.
- Sente esse caroço na minha cabeça que a mamãe esconde com o cabelo?

Adulto tem pavor de assuntos relacionados à deficiência. Acha até que dá azar. Criança não, quer saber sobre o que não entende: diferenças individuais. Encontra as respostas de que necessita? Difícil. Pais e professores costumam achar natural não terem informações corretas sobre doenças crônicas, distúrbios neuro-psico-motores, síndromes genéticas e situações que levam a incapacidades. Desde 1992 me especializo em levar informações relacionadas à deficiência para adultos e crianças. Percebi que informação correta para o adulto apenas civiliza seu preconceito. Mas o sentimento continua lá, esperando para dar o bote. Para minimizar o preconceito será preciso impedir que ele se instale. Daí a importância da literatura infantil, arma poderosa e pouco utilizada no combate a qualquer discriminação.

Passei por uma experiência decisiva. Em 1994, escrevi a coleção Meu Amigo Down. Ao divulgá-la nas escolas eu era torpedeada pelos alunos com perguntas sobre anormalidades. Tornei-me a deixa para que abordassem assuntos que os afligiam e os deixavam curiosos. Fiquei aflita com a aflição deles.

Certa de que criança tem direito de ter informação de qualquer natureza numa linguagem acessível, escrevi o livro Um amigo diferente? (Editora WVA). O livro conta a história de um amigo que afirma ser diferente. Muito ou pouco? De que jeito? A cada página, o amigo imaginário dá pistas novas, atiçando a imaginação da criançada. E o leitor vai se deparando com temas pouco abordados como hemofilia, artrite, diabetes, doença renal, deficiências físicas, sensorial e mental, entre outros. Mas que ninguém se espante. O livro é alegre, colorido e divertido. Desejo oficializar nas salas de aula e nos lares brasileiros a discussão sobre as diferenças individuais. Torço para familiares e educadores se interessarem por esses temas. Ou persistiremos no erro de construir cidadãos pela metade?

O preconceito contra os diferentes nasce na infância. No jantar, o filho pergunta: "pai o que é ostomia?" O adulto responde: "não pensa nisso, é muito triste, come senão a comida vai esfriar". Sem resposta, e vendo sua dúvida desvalorizada, a criança se cala. O que deveria ser esclarecido vira mistério, tabu. Eu sei, nada é tão simples. Mas por não termos sido educados para entender a diversidade como situação natural, hoje relutamos em obedecer leis e seguir regras sociais que dêem às pessoas com deficiência um direito assegurado na Constituição Federal: a cidadania.

Por isso defendo a sociedade inclusiva. Nela, não haverá espaço para aceitar crianças e adolescentes com deficiências e depois bater no peito ou dormir com a sensação de termos sido bonzinhos. Na sociedade inclusiva ninguém é bonzinho. Cada cidadão é consciente de sua responsabilidade na construção de um mundo que dê oportunidade para todos. Jovens crescerão convictos de que se relacionar com pessoas deficientes não é favor, mas troca. Nesse ideal de inclusão, difundido internacionalmente nos últimos anos, felizes das escolas que se propuserem a ser transformadoras, empenhando-se em formar cidadãos mais éticos, capazes de respeitar aqueles que são - ou estão - diferentes.

Acredito na força de um lar no qual os adultos, questionados sobre temas que lhes incomodem, abram seus corações e seus dicionários com o mesmo orgulho que orientam os filhos sobre política ou economia. Portadores de diferenças querem ser levados à sério. Assumirão sua condição com cada vez mais dignidade. Se nós, portadores de diferenças menores, permitirmos... Como diz o personagem do livro Um amigo diferente?: "Você está preocupado comigo? Obrigado. Mas eu vou em frente. Essa é a minha vida". 



"Estamos habituados a considerar deficiência uma conversa 'particular', sem relevância para os grandes debates nacionais sobre educação, saúde, cultura, cidadania, lazer e direitos humanos em geral. Muitos de nós pensam em política pública de forma segmentada: crianças pobres de um lado, crianças com deficiência de outro. Há educadores, ativistas em direitos humanos, médicos, pagodeiros, gestores públicos, empreendedores sociais, empresários, contadores, jornalistas e jornaleiros, enfim, gente com histórias de vida muito variadas, de todos os segmentos sociais, pensando assim. Há até quem discorde de que toda criança tem idêntico valor humano e social.

A Constituição não dá margem a dúvidas: meninos e meninas com síndrome de Down são sujeitos de todo e qualquer direito e devem exercer o direito à educação na escola pública mais próxima de sua comunidade. Nada de escolher um ou outro direito mais simpático, como brincar no parque, cortar cabelo em um dia especial ou freqüentar praças públicas. São seres públicos, e não problemas privados. Integram o presente e o futuro do Brasil. Quem tem a coragem e o direito de negar isso? "
Inserida em: 16/2/2007 - em http://sentidos.uol.com.br






Cláudia Werneck, jornalista e escritora, é autora de mais de dez livros sobre inclusão, entre eles Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva (WVA Editora), o primeiro livro lançado no Brasil sobre o conceito de sociedade inclusiva da ONU. É responsável pelo projeto "
Muito prazer, eu existo". 


"A principal característica da inclusão é propor uma sociedade para todos, uma escola para todos, de forma incondicional. É para todos mesmo!" Claúdia Werneck

imagem: www.cjb.org.br/iessod/RETROSPECTIVA/todos_02/entrevista_claudia_werneck.jpg

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