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De volta ao futuro
Como a pintura, o apoio da família e o desejo de viver ajudaram Osmar Santos a driblar as seqüelas do grave acidente sofrido há 13 anos e recolocaram o destino em suas próprias mãos
Reportagem: Paulo Kehdi
Foto: Fabio Braga
http://sentidos.uol.com.br/canais/materia.asp?codpag=974&canal=revista
Inserida em: 27/8/2007

No apartamento, onde Osmar vive sozinho, com uma de suas telas
Assim que a porta se abre, ouve-se um carinhoso "bom dia" do dono da casa. É o próprio Osmar Santos quem recebe a reportagem de Sentidos, com o sorriso aberto que é sua marca registrada. Para mim, que fiz a travessia da adolescência à idade adulta ouvindo Osmar, o Pai da Matéria, narrar os gols do Santos (E que goooooooooollllllllll...), estar diante dele é uma emoção - e um desafio. Impossível não olhar para Osmar Santos, à primeira vista, com olhos de passado. Difícil aceitar que um dos maiores narradores esportivos da era do rádio seja, hoje, um registro de nossa memória comum. Mas, assim como eu, que descobri nas vezes em que estive com ele, amigos e familiares, que do acidente que quase o matou, há 13 anos, nasceu uma outra pessoa, você terá a certeza de que aos 58 anos ele não é um homem condenado ao passado: nesta quase década e meia ele dedicou-se com obstinação olímpica à reabilitação, e graças a isso alcançou um presente repleto de conquistas e o direito de sonhar com o futuro.
O bom humor de Osmar Santos contrastava com a segunda-feira fria e chuvosa do inverno paulistano, quando conversamos pela primeira vez. Eram 9 horas da manhã e Osmar, que costuma acordar cedo - nunca depois das 7 horas -, havia acabado de interromper o que mais gosta de fazer atualmente: pintar. A calça de sarja parecia um arco-íris em movimento, tamanha a profusão de cores respingadas sobre o bege original. Camiseta e cabelos em desalinho, descalço, ele movimentava-se pela sala com alguma dificuldade, devido à hemiplegia que acometeu o lado direito de seu corpo em consequência do grave acidente de carro que sofreu numa também chuvosa noite de 22 de dezembro de 1994 - vítima de uma manobra irresponsável de um caminhoneiro, quando dirigia, sozinho, em direção a Birigui (SP).
Como a intenção era, além de entrevistá-lo, fazer uma sessão de fotos, rapidamente o deixamos - o fotógrafo Fabio Braga e eu - retomar o ritual de todas as manhãs e alguns fins de noite. Ele senta-se numa cadeira e veste a luva na mão esquerda. A tela em construção, apoiada numa pequena mesa, espera. De onde vem a inspiração? "Tudo. Vida", responde sinteticamente. Os dedos movimentam-se rapidamente, ora delimitando as formas ora dando cores vivas a elas. Osmar raramente usa o pincel. "Pouquinho", diz.
A forma de comunicação, que a primeira vista parece rudimentar, na verdade mostra exatamente o contrário. Exibe o grande progresso que ele alcançou nesses anos. Clara Hori, fonoaudióloga que acompanhou Osmar desde janeiro de 1995, quando ainda se encontrava internado no hospital Albert Einstein e que o atendeu por mais de uma década, dá o seu depoimento. "Logo após o acidente, ele apresentava um quadro de diminuição da atenção de forma generalizada, o que gerava dificuldades em várias atividades cognitivas. Em relação à fala, não conseguia emitir uma única palavra. Na maioria das vezes, nem mesmo gestos fazia. Com o passar do tempo, teve uma melhora impressionante no que diz respeito ao processo interpretativo, conseguindo compreender praticamente tudo o que lhe é dito, assim como elaborar o discurso que quer expressar, usando palavras-chaves ou frases curtas."
Apesar do evidente progresso no processo comunicativo, nossa entrevista precisa ser intermediada por alguém. Osmar se faz compreender nos diálogos, mas os detalhes escapam. Vamos em direção à zona central da cidade, para nos encontrarmos com o mais jovem de seus três irmãos, Oscar Ulisses, diretor e locutor da Rádio Globo, em São Paulo. Além de Oscar, Odinei Edson também seguiu os passos do irmão mais velho e fez do rádio sua morada profissional, na Bandeirantes. Osires Santos, o segundo filho de Romeu (que faleceu há três meses) e Clarice (atualmente morando em Marília), foi o único a enveredar por outro caminho, fazendo carreira em bancos. O trajeto é feito de carro, meio de transporte que Osmar usa quase à exaustão, diariamente, com uma média de 7 mil quilômetros por mês, entre viagens para o interior e o litoral, além das inúmeras incursões pela própria São Paulo.
"No início, Osmar mostrou alguma revolta, uma depressão muito forte", conta Oscar, que ainda hoje divide, em algumas transmissões, o microfone da Rádio Globo com o irmão, que tem o contrato de diretor do departamento esportivo da emissora, assinado em 1992, renovado ano após ano, sem interrupções. "Pouco mais de um ano depois do acidente ele decidiu que ou ficava reclamando do que perdeu, ou ia viver com o que tinha. E foi o que fez. Pôs a cara na rua, nunca mais o ouvi reclamar. Se ele não está pintando, dificilmente fica em casa. Adora passear em shopping centers, ir a restaurantes, exposições e leilões de arte, ao Clube Pinheiros, fazer sauna, ver os amigos. Gosta do contato humano. Teatro, ópera. Ele sempre buscou informação, cultura. E levou isso para o rádio. Brincava, mas sem perder o sentido crítico."
Durante os jogos, Osmar faz pequenas inserções. Expressões do tipo "mamãe", quando o jogador é autor de uma jogada bisonha, ou "gol legal", quando a rede balança, chegam aos ouvintes numa entonação única, quase musical. Na cabine no estádio do Morumbi, Osmar fica à vontade. Brinca com todos, até mesmo com o comentarista Caio Decoussau, ex-jogador do São Paulo, Santos e Botafogo. Questionado por Oscar Ulisses sobre a qualidade do novo contratado, dispara. "Meia-boca". Todos, inclusive Caio, caem na gargalhada. Pudera. Desde os 14 anos, o rádio é o seu habitat natural.
Durante o curto trajeto entre a rampa de acesso do estádio até as cabines, Osmar cumprimentou e foi cumprimentado dezenas de vezes. Requisitado para fotos, atendeu a todos com um sorriso e o dedo polegar fazendo gesto afirmativo. "Foto. Bom. Muito bom." O andar é lento e o apoio da bengala, indispensável. Fátima Gobbi, fisioterapeuta que o acompanha desde o primeiro dia de internação no Albert Einstein, e que ainda faz duas sessões semanais de fisioterapia com ele, comenta sua evolução. "Iniciei o trabalho na Unidade de Terapia Intensiva, com o objetivo de manter a integridade de suas estruturas, evitando encurtamentos e deformidades. Depois, percorremos todas as etapas do desenvolvimento motor. Recuperar a mobilidade, a estabilidade, para que ele pudesse assumir posturas e manter-se sentado e em pé. Sua evolução foi excelente, devido à vontade e a determinação com que se entregou ao processo de reabilitação. Nos surpreende com melhoras mesmo quando acreditamos que ele tenha chegado ao seu ápice. Às vezes, Osmar abre mão de caminhar para se deslocar usando uma cadeira motorizada. Seria melhor que a evitasse o máximo que puder", recomenda.