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"O FILHO ETERNO" : ROMANCE, AUTOBIOGRAFIA OU REPORTAGEM ? POUCO IMPORTA. É UM LIVRAÇO
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O escritor Cristovao Tezza, 55 anos, romancista, ex-relojoeiro (!), catarinense radicado em Curitiba, professor da Universidade Federal do Paraná, acaba de cometer uma façanha e criar um problema para a literatura brasileira.
A façanha : recém-lançado, "O Filho Eterno" já desponta como favoritíssimo ao título de melhor do ano. O problema : "O Filho Eterno" foi publicado pela Editora Record na categoria de "romance brasileiro", mas é um texto escancaradamente autobiográfico.
Tezza descreve, sem jamais cair no melodrama ou na pieguice, um acontecimento que o fez se sentir como se fosse um boi cabeceando inutilmente contra as paredes do corredor de um matadouro: o dia em que recebeu a notícia de que o primeiro filho, tão esperado, tinha Síndrome de Down.
Não é exagero carimbar "O Filho Eterno" desde já como o lançamento do ano. O site de literatura Todoprosa, mantido por Sérgio Rodrigues, também concedeu este título antecipado do livro. Ainda é agosto. Mas, pelo menos na categoria de "romance brasileiro", a disputa pelo campeonato de melhor do ano parece resolvida. Que se apresentem os outros candidatos.
Pergunte-se a um leitor médio, aquele que desembarca na livraria simplesmente em busca de uma bela descoberta : o que é que define uma boa leitura ? Nove entre dez dirão que boa leitura é aquela capaz de prender a atenção. Que outra coisa pode querer um autor ? E excelente leitura é aquela que arrebata. É o caso de "O Filho Eterno". Tezza acaba de criar o Expresso 222 da literatura. As 222 páginas de O Filho Eterno voam, arrebatadoras, como se fossem vinte.
Referir-se a si próprio na terceira pessoa virou sinônimo de vaidade desde que Pelé - e outras celebridades menos votadas - cairam nessa tentação. O autor de "O Filho Eterno" se enquadra na categoria dos que falam de si próprios na terceira pessoa por outro motivo: o excesso de pudor na hora de subir à ribalta para se expor aos olhos do público. É compreenssível. O fato de a narração ser feita na terceira pessoa é, provavelmente, o único detalhe que impede "O Filho Eterno" de se enquadrar na categoria de autobiografia.
Resta o "problema" literário criado por "O Filho Eterno" : a partir de que momento uma narrativa amparada em fatos deixa de ser uma autobiografia para se transformar em "romance" ? É tudo uma questão de primeira ou terceira pessoa ? Estudantes de Letras, se é que existem, mãos à obra!
"O Filho Eterno" poderia também ser qualificada como uma peça do chamado "novo jornalismo", uma reportagem irretocável, merecedora de todo aplauso numa época em que texto jornalístico, golpeado pelos "idiotas da objetividade", cabeceia, também ele, como se fosse um boi no corredor de um matadouro. O livro não deixa de ser uma bela reportagem autobiográfica de um pai que toma para si uma tarefa dificílima : a de narrar uma dor inenarrável ou, para usar uma palavra que é cara ao autor, "irredimível".
A certa altura do texto, Tezza confessa ser um daqueles autores que, em nome da devoção incondicional à literatura, são capazes de engolir durante anos a fio recusas de editoras e eventuais fracassos de venda. Ainda assim, vão adiante, porque crêem que o que conta é o embate original com as folhas de papel em branco (ou com a tela alva do computador) : neste cenário íntimo, pessoal e intransferível, os Cristovao Tezza entregam-se à acidentada tarefa de tentar traduzir a vida em palavras, "dar nome às coisas". Todo o resto é acidente, vaidade, desvio, perda de tempo, mera consequência.
"Os escritores brasileiros somos pequenos ladrões de sardinha, Brás Cubas inúteis", diz, a certa altura do livro. Imagina-se, lá pelas tantas, autor de livros que ninguém lerá - e pai de um filho que não poderia amar. Mas persiste, porque, para ele, escrever é uma escolha radical, uma predestinação que não depende de coisas tão pequenas quanto os humores das editoras ou as leis de mercado.
Quem termina a travessia arrebatadora das 222 páginas de "O Filho Eterno" haverá de sentir um alívio e uma alegria. O leitor concluirá que, feitas as contas, o poeta Drummond tinha toda razão ao dizer que nossa existência é "um sistema de erros", "um vácuo atormentado", "um teatro de injustiças e ferocidades" , mas, no caso de Cristovao Tezza, tanta dor, tanto tormento, tanto espanto, tanto vácuo, tanto remorso, tanta incredulidade, tudo, enfim, foi recompensado com uma bela contrapartida, o melhor prêmio que um escritor poderia esperar : concebeu um livro que todos deveriam ler sobre um personagem que todos haverão de amar. Chama-se Felipe.
É este o nome do filho eterno.
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Trechos de "O Filho Eterno" , em que o pai recebe a notícia de que o filho tinha sido diagnosticado como portador da Síndrome de Down:
"Em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo ( e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão "para sempre" - a idéia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar. Tudo pode ser recomeçado, mas agora não: tudo pode ser refeito, mas isso não ; tudo pode voltar ao nada e se refazer, mas agora tudo é de uma solidez granítica e intransponível : o último limite, o da inocência, estava ultrapassado; a infância teimosamente retardada terminava aqui, sentindo a falta de sangue na alma, recuando aos empurrões, sem mais ouvir aquela lengalenga imbecil dos médicos".
"Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer coisa, ele concluiu- nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir".
"Pai e mãe são tomados pelo silêncio. É preciso esperar para que a pedra pouse vagarosamente no fundo do lago, enterrando-se mais e mais na areia úmida, no limo e no limbo, é preciso sentir a consistência daquele peso irremovível para todo o sempre, preso na alma, antes de dizer alguma coisa. Monossílabos cabeceantes, teimosos - os olhos não se se tocam".
"Se eu escrever um livro sobre ele, ou para ele, o pai pensa, ele jamais conseguirá lê-lo"
"Eu não posso ser destruído pela literatura; eu também não posso ser destruído pelo meu filho - eu tenho um limite : fazer, bem-feito, o que posso e sei fazer, na minha medida. Sem pensar, pega a criança no colo, que se larga saborosamente sobre o pai, abraçando-lhe o pescoço, e assim sobem as escadas até a porta de casa"
"Durante todos esses anos sentiu o peso ridículo de ser escritor, alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê ; e resistiu bravamente, e pelo menos nisso teve sucesso, ao consolo confortável, à coceira na língua, quase sempre calhorda, de despejar no mundo as culpas da própria escolha"
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TRANSCRITO DE: http://www.geneton.com.br/archives/000256.html
´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´A colméia em pânico``````````````````````
A grande colméia humana precisa valer-se do conhecimento para manter-se livre, superior, segura, garantida contra o mau uso de tecnologias de alcance estratégico e mundial.
em: 10/9/2007 - http://sentidos.uol.com.br
Por J. Olímpio*
Apicultores catarinenses estão muito preocupados com um estranho fenômeno. Populações inteiras de abelhas estão abandonando suas colméias, deixando para trás o mel já produzido e solitárias as rainhas, que acabam morrendo de fome. Misteriosamente, essas abelhas não aparecem mortas e literalmente somem da região; migrando não se sabe para onde.
Sejam quais forem os motivos desses abandonos coletivos - e o cultivo de transgênicos é um dos mais prováveis, pelas alterações tóxicas que ocorrem nos pólens dessas plantações - o caso tem uma assustadora semelhança com a previsão de que, num futuro não muito distante, populações humanas inteiras serão desalojadas de suas origens, por absoluta falta de condições climáticas e sanitárias. Isso já se verifica em diversos pontos da África, onde a seca e a infertilidade do solo têm gerado multidões de retirantes.
Lembro que já focalizei esse assunto antes, no texto Excluídos da Terra, mas o enfoque agora é outro. Hoje, me refiro a um fator - na minha opinião - decisivo para a resolução desse caso (das abelhas) e de muitos outros fatos indicadores de um colapso ecológico: a imitação da natureza.
Durante a sua curta estada sobre a Terra, o bicho-homem absorveu muito conhecimento e se valeu dele para sobreviver, prosperar e perpetuar-se como dominador do planeta. Nos últimos dois séculos, porém, suas intervenções no meio ambiente chegaram a um nível perigosíssimo, próximo do caótico. Se, já na Antigüidade, faziam-se represas e desviavam-se rios, hoje, constróem-se artefatos atômicos capazes de anular totalmente partículas de matéria. E mais: já existem pesquisas até com a chamada anti-matéria, e com processos de tele-transporte pelo espaço. Em resumo, estamos mexendo com as fórmulas básicas do universo, mudando a ordem de fatores críticos para o equilíbrio ainda reinante no cosmos.
Não, não estou apavorado com as pesquisas. Só tenho medo dos interesses por trás delas. Os poderosos do planeta, cegos e surdos aos mais fracos, não hesitam em valer-se de avanços científicos e tecnológicos. A fachada politicamente correta da partilha do conhecimento nem sempre é uma verdade completa.
Mas, temores à parte, a grande colméia humana precisa valer-se desse mesmo conhecimento para manter-se livre, superior, segura, garantida contra o mau uso de tecnologias de alcance estratégico e mundial. E isso só se faz coletivamente, com educação em massa e com avançada organização. Abelhas já nascem com essa herança genética, pessoas necessitam ser ensinadas e inseridas socialmente.
Thomas More (1478-1535), filósofo, advogado e político inglês, descreveu em sua obra ficcional A Utopia (1516) uma sociedade igualitária, justa e ideal. Por não haver circulação de dinheiro nela, ninguém estava subordinado social, financeira ou religiosamente. Todos eram tratados como cidadãos na plenitude de seus direitos e a paz era o paradigma comunitário. O objetivo de More, com o livro, era criticar o rei Henrique VIII - de quem era conselheiro - e a Inglaterra de então, onde o poder era desmedido e os crimes recebiam punições desumanas. Não por acaso, o próprio Thomas More foi desacreditado, condenado e morto por Henrique VIII, quando desaprovou a conduta adúltera do soberano. Ou seja, não é de hoje que o poder quer manter-se à qualquer custo.
O século XXI nos proporciona uma interação tecnológica bastante improvável de ser desmantelada por grupos isolados. Apesar de altamente manipulados, a TV, o rádio e as demais mídias convergem - pela Internet - numa rede instantânea de mobilização popular, através da facilidade na informação. É claro que existe muita inverdade fazendo a cabeça de muita gente, na Web. Entretanto, a filtragem se faz possível, a conscientização é mais do que provável, a mobilização pode ser planetária.
A questão é: quem ou o que vai motivar tão profundamente os milhões de homens e mulheres plugados nas telas e fones interativos?... Que imagem ou discurso será eloqüente o suficiente para unir a consciência mundial em torno da causa ecológica?...
O exemplo das abelhas volta, impactante, quando se observa que não temos a mesma unanimidade das colméias fugitivas, nem temos para onde migrar tão radicalmente. Não se trata de perseguir a unanimidade burra, sem alternativas, mas sim de priorizar o bom senso e escolher a melhor opção para a sociedade. Então, o ensinamento das abelhas permanece válido, se o usarmos como uma metáfora, isto é, fugir também pode significar abandonar o antigo rumo, redirecionar-se, buscar destino melhor.
Muito mais sábio do que sair desesperadamente em busca da restauração é evitar a tragédia. Muito melhor do que rejuntar os cacos é reconstruir um novo mundo. Resgatar o poder decisório coletivo bem pode ser a vacina contra o totalitarismo e a opressão.
Afinal, não somos insetos e não precisamos alimentar a "rainha-exclusão".
* J. Olímpio
Paranaense, 47 anos, é roteirista, produtor multimídia e colunista do site e da revista Sentidos. É cadeirante, com seqüela severa de poliomielite.
Poesia 35
se existe a beleza
a singeleza
a pureza
mesmo com cor
o mais belo sabor
melhor até do que o caramelo
tudo devota
ao
Ipê-ama
Ipê-amar
Ipê-elo
Ipê-amarelo
Set/2003. VALTER LIMA ALVES , nascido em Altos, Piauí, a 16 de janeiro de 1968.
Poesia 46
ei-lo
mais que belo !
ei-las
ao seu redor
que também sempre reinam :
beleza
singeleza
pureza
ei-lo
de agosto a setembro
no seu mais alto vigor
primor
rigor
sendo mais que belo:
Ipê-amarelo
The set/2004 - VALTER LIMA ALVES , nascido em Altos, Piauí, a 16 de janeiro de 1968
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POESIAS GENTILMENTE ENVIADAS POR KATHLEEN LESSA
:: A volta do ipê amarelo ::
Luiz Simões Saidenberg
E nosso ipê está florido, de novo! Quando o fez, pela primeira vez neste ano, houve um certo desapontamento. Havia crescido muito, e floriu só nas partes altas, tirando-nos assim a bela visão, antes possível, de suas pétalas junto à vidraça da sala.
Desapontamento em têrmos, pois o milagre de sua floração anual não é coisa para ser menosprezada. Mas as pétalas se foram, ficando o arbusto com galhos nus e expostos.
Como disse, é uma vez ao ano, só! Mas, desta vez enganei-me.
Tivemos dias de frio, de calor, de sol de verão, de chuva ininterrupta. Que estação estranha!
E o ipêzinho, quieto, ruminando sua surpresa.
Começo então notar algo curioso, brotando. Seriam flores? Eram flores, os botões agora mais abundantes, e humildes,não se limitando ás alturas ,mas descendo a poucos metros do chão.
Uma segunda florada, e mais rica e bela que a primeira!
Como se a primeira entrada da primavera, tão tumultuada, não houvesse valido, e merecesse uma segunda chance.
Agora as flores de ouro podem ser vistas de dentro de casa, e também por fora do muro. O último ipê amarelo a florir, talvez, nesta cidade.
Fico pensando como seria bom se toda gente desesperada, ou animais desvalidos, tivessem uma segunda chance, assim. Há algum tempo meu filho, estudante de veterinária, trouxe da clínica onde estagiava, um pobre papagaio.
Aleijado de uma perna, com uma asa estropiada, problemas intestinais, a ave fora abandonada lá, para ser tratada, ou para morrer. Ia ser sacrificada, mas meu filho notou que o bicho ainda lutava, tinha fome, de comida e vida. Trouxe-o então para casa.
Com remédios, com alimentação adequada, e não só a semente de girassol que tanto mal faz ao coração desses bichos, mas também com muito carinho, cuidamos de sua recuperação.
E foi uma alegria vê-lo desenvolver-se, cada vez mais forte e alegre. A princípio nada dizia, mas começou a corrupaquear, e seu assobio, a princípio fraquinho, foi se tornando poderoso.
Sou contra animais presos, mas em muitos casos eles estão tão acostumados ao cativeiro que não sobreviveriam no feroz mundo exterior. Nosso papagaio, aleijado, então não teria a menor chance.
E aqui está ele, disposto, comilão e feliz. É a segunda chance de que falei, que todo mundo merecia, e ele soube aproveitar. Que tenha longa vida, pois os papagaios bem tratados costumam viver muito, 50 anos ou mais. O ipêzinho decretou: temos uma segunda primavera. E o lourinho, uma segunda vida. Que sejam bem vindas!
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:: Segunda canção do peregrino ::
Guilherme de Almeida
Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e fiz dele meu bordão.
Foi minha vista e meu tato;
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.
Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.
Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei porque razão.
Mas certa vez,parei um pouco
e ouvi gritar: "Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!"
E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, cores...
- Tinha florido o meu bordão.
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COLABORAÇÕES DA AMIGA KATHLEEN LESSA
A AMIGA KATHLEEN INSPIROU-SE NO TEMA E ENVIOU ESTA BELA COMPOSIÇÃO ILUSTRADA !!!

DIZENDO: "Acabei de compor, especialmente para o seu artebrasilis, querida!
Pra lá acho que essa foto ficará melhor que a minha.
Publiquei agora no Recanto mas vc tem autorização para publicar no seu blog, tá, amiga?
Até porque, dediquei-o você.
Beijos,
Kathleen
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TROVA
[FLORES DE OURO]
Setembro de refestelos
nas ruas e no coração:
gomos de ipês amarelos
colorindo a estação!
Kathleen Lessa
Publicado no Recanto das Letras em 10/09/2007
http://recantodasletras.uol.com.br/visualizar.php?idt=646656
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